
A primavera costuma ser percebida primeiro do lado de fora. No jardim, nos campos, nas árvores que começam a mudar e nos primeiros sinais de uma nova estação.
Mas existe outra forma de perceber a chegada da primavera: à mesa.
Por muito tempo, comer de acordo com a estação foi algo natural. As pessoas consumiam aquilo que a terra oferecia naquele período, seguindo os ciclos de plantio, crescimento e colheita. Hoje, a distribuição de alimentos, as técnicas de conservação e o cultivo protegido permitem que muitos produtos estejam disponíveis durante boa parte do ano.
Ainda assim, os ciclos da natureza continuam existindo.
Na Serra Catarinense, eles podem ser percebidos com bastante clareza. O calendário agrícola da região é escrito no campo e acompanha as características de cada estação.
Comer de acordo com a estação já foi algo muito mais natural
Hoje, entrar em um supermercado e encontrar praticamente os mesmos alimentos durante todo o ano faz com que as estações pareçam menos presentes na alimentação.
Mas, no campo, elas continuam determinando o ritmo.
Comer de acordo com a estação significa reconhecer esse calendário e compreender que cada período oferece determinadas frutas, verduras e outros alimentos em seu melhor momento de produção.
Em regiões onde as estações são mais marcadas, essa percepção se torna ainda mais interessante. O que chega à mesa pode mudar ao longo do ano, acompanhando os ciclos de cultivo e as condições de cada período.

Na Serra Catarinense, a primavera começa no campo antes de chegar ao prato
A Serra Catarinense possui uma produção diversificada de frutas de clima temperado. Maçãs e uvas estão entre as mais conhecidas, mas também fazem parte desse cenário ameixas, peras, morangos, amoras, framboesas, caquis e outras frutas produzidas em diferentes municípios da região.
Em Urubici, a altitude e as características do clima também participam desse processo.
A altitude influencia as condições em que os frutos se desenvolvem. Temperaturas mais baixas, luminosidade e maior amplitude térmica entre o dia e a noite participam dos processos de desenvolvimento e maturação e podem influenciar a composição dos frutos e características que percebemos no sabor.
Aquilo que é produzido na Serra também carrega características das condições em que foi cultivado.
A primavera, porém, não significa que todas essas frutas já estejam prontas para chegar à mesa. O ciclo começa muito antes da colheita.
É o período em que muitas plantas retomam o desenvolvimento, florescem, formam frutos e passam por diferentes etapas até chegar ao momento adequado para a colheita.
Para quem observa apenas o alimento pronto, esse processo pode parecer rápido. Para quem produz, ele faz parte de um calendário muito mais longo, que envolve preparação, manejo, floração, desenvolvimento e espera.
É também nesse momento que alguns alimentos colhidos em outras estações podem ganhar novas formas de permanecer à mesa.
Na Cantos e Encantos, as frutas orgânicas da estação também podem ser transformadas em compotas produzidas na própria pousada durante seu período de colheita. É uma maneira de preservar esses sabores com frescor e permitir que continuem presentes no café da manhã em outras estações.
Essa escolha também amplia a experiência de quem chega à pousada. Algumas dessas frutas são pouco conhecidas por muitos visitantes, como a gila, a uvaia e a nêspera. A framboesa, produzida em maior quantidade durante o verão, também pode continuar presente em outros períodos por meio das compotas.
Assim, a sazonalidade não desaparece quando termina a colheita. Ela pode permanecer à mesa de outra forma.
E é justamente essa mudança gradual que torna as estações interessantes: uma fruta aparece, outra deixa de estar disponível, uma preparação retorna depois de alguns meses e novos sabores começam a ocupar seu espaço.
A estação acontece aos poucos, conforme diferentes ciclos se encontram.

A temperatura também participa daquilo que chega à mesa
A sazonalidade não está apenas relacionada ao que o campo produz.
A própria temperatura também influencia aquilo que faz sentido preparar e servir em cada época do ano.
Um café da manhã em uma manhã fria de inverno naturalmente convida a determinadas preparações. Na primavera, quando os dias começam a ganhar temperaturas mais amenas, outros sabores e combinações passam a fazer sentido.
Algumas preparações permanecem durante todo o ano. Outras acompanham a disponibilidade dos ingredientes, o clima e o momento de cada produto.
A estação, portanto, não precisa determinar o cardápio. Ela pode simplesmente participar dele.
E é nesse ponto que a sazonalidade encontra o café da manhã.
Um bom café da manhã precisa ter tudo todos os dias?
A imagem tradicional de um café da manhã de hotel costuma estar associada a mesas extensas, muitas opções e uma grande variedade de alimentos.
A variedade, por si só, pode parecer sinônimo de uma experiência melhor. Mas quantidade e qualidade não são necessariamente a mesma coisa.
Quando é preciso oferecer muitas opções todos os dias, a produção precisa ser maior e determinados produtos permanecem disponíveis por mais tempo. É uma escolha possível, especialmente em operações de maior escala, mas não é a única maneira de construir um bom café da manhã.
Na Cantos e Encantos, escolhemos outro caminho: trabalhar com menos para escolher melhor e oferecer melhor. É a mesma lógica por trás do movimento slow food, criado na Itália como resposta à padronização da comida rápida: comer com tempo, valorizar produtores locais e respeitar o ritmo de cada estação.
Isso significa selecionar os ingredientes com critério, preparar em menor escala e observar o momento em que cada alimento faz mais sentido à mesa.
Não se trata de ter menos por ter menos. Trata-se de dar mais atenção àquilo que foi escolhido para estar presente.
O que importa não é ter tudo todos os dias, mas haver intenção, qualidade e frescor naquilo que foi escolhido para estar à mesa.

Na Cantos e Encantos, parte do café da manhã começa na própria região
Na Cantos e Encantos, em Urubici, o café da manhã deixou de ser apenas uma refeição da hospedagem — tornou-se o motivo dela. É o conceito que chamamos de Café da Manhã com Hospedagem: mais do que uma refeição, uma experiência gastronômica pensada para ser vivida com tempo à mesa.
Pães artesanais, ovos autorais, frios especiais, queijos, frutas e cafés brasileiros chegam à mesa acompanhados pela paisagem das montanhas da Serra Catarinense.
Parte dos ingredientes vem de pequenos produtores e parte é produzida ou preparada na própria pousada. As frutas utilizadas são orgânicas e respeitam seus períodos naturais de produção.
Isso não significa transformar o café da manhã em uma apresentação de produtos típicos da região.
A ideia é outra: permitir que alguns sabores do lugar façam parte da experiência.
Uma fruta da estação pode chegar fresca à mesa. Em outro momento do ano, pode aparecer em uma compota produzida na própria Cantos e Encantos. Um ingrediente pouco conhecido pode se transformar em um bolo, uma preparação autoral ou uma compota e, assim, apresentar ao hóspede um sabor que talvez ele nunca tenha experimentado.
É também uma forma de preservar aquilo que a própria região oferece.
Na Cantos e Encantos, trabalhar em menor escala permite fazer escolhas mais cuidadosas, sem transformar o café da manhã em uma produção padronizada.
Por isso, o café da manhã também muda.
Não necessariamente de maneira evidente todos os dias, mas ao longo das estações, conforme mudam os ingredientes disponíveis, as frutas, as temperaturas e as possibilidades de preparo.
O resultado é um café da manhã que não precisa ser exatamente igual a cada visita.
Para quem retorna, isso também faz parte da experiência: reconhecer aquilo que já conhece e, ao mesmo tempo, encontrar algo que ainda não havia experimentado.

Talvez uma estação também possa ser lembrada pelo sabor
As estações costumam deixar marcas na memória por meio das paisagens, das temperaturas e das cores.
Mas os sabores também podem fazer parte dessas lembranças.
A disponibilidade de muitos alimentos durante boa parte do ano pode ter diminuído a percepção das estações à mesa, mas não eliminou seus ciclos.
Uma fruta que retorna depois de alguns meses, uma compota preparada durante a colheita ou uma receita que aparece novamente quando determinado ingrediente está disponível podem fazer lembrar não apenas um sabor, mas também um período do ano.
O alimento também pode revelar características da região de origem, das condições de cultivo e da estação em que chegou à mesa.
Por isso, comer de acordo com a estação não precisa significar seguir regras rígidas. Pode ser simplesmente uma maneira de perceber melhor o que está acontecendo ao nosso redor.
Na Serra Catarinense, a primavera começa nos campos, nos pomares e nos jardins.
Pouco a pouco, alguns desses sinais encontram também o caminho até a mesa.
E, quando isso acontece, a estação pode ser percebida não apenas pelo que vemos, mas também pelo que provamos.